sábado, 21 de janeiro de 2012

Jobim chupou Chopin

Parece que chupou até no nome. Para um argentino, por exemplo, CH e J soam iguais.

Já é bastante conhecido o plágio de Insensatez em relação a um prelúdio do Chopin (opus 28, número 4). A sequência de acordes característica da canção foi copiada do prelúdio, que também ficou famoso justamente pelo inusitado encadeamento de acordes, só que composto 100 anos antes. Isso já foi objeto de teses, artigos, posts aos montes e vídeos no Youtube (procurem aí na web, mas cuidado para não serem presos pelo FBI). Jobim morto, ficou tudo sepultado como "citação" e "inspiração".

Acontece que eu descobri outra "fonte" do nosso maior compositor de música popular: a melodia de Retrato em Branco e Preto veio direto de um trinado do noturno Opus 9 Número 2, uma peça bastante popular mas também respeitada pelos entendidos, graças a complexos achados musicais. Noturno de quem? Chopin, é claro.

"Trinado" é um truque na música que consiste em tocar muito rápido duas notas vizinhas. Nesse caso, Chopin fez um trinado sofisticado e raro, com quatro notas vizinhas. Fica no finalzinho do noturno, veja abaixo (pintei de amarelo a célula que se repete):


Noturno Opus 9 número 2 - Chopin (clique para ampliar)

A melodia de Retrato em Branco em Preto, saudada como uma criação genial e sofisticada do Jobim, é exatamente esse trinado do Chopin, só que tocado lentamente e em outro tom. Veja a partitura:



Retrato em Branco e Preto - Jobim (clique para ampliar)

Em resumo: quem compôs a melodia de Retrato em Branco e Preto foi Frédéric Chopin, não Antônio Carlos Jobim. Não é a melodia inteira, obviamente, e a canção do Jobim faz evoluções e variações. Mas o que há de realmente inventivo na melodia é essa célula e sua repetição. Essa é a "sacada" original. O que Jobim teve de genial foi copiar uma célula rapidíssima e reduzir drasticamente a velocidade, tornando a cópia quase imperceptível. Golpe de mestre.

Para quem não entende bulhufas de partituras, arranhei no piano e gravei a prova num iPhone vagabundo. Peço desculpas por não ser pianista. Toco piano quase tão mal quanto o Jobim, mas só gravei pra explicar melhor aos nãoiniciados. Começo tocando o trinado e vou diminuindo a velocidade até chegar a Retrato em Branco e Preto:





Se não funcionar, tente aqui:
http://robertomelo.com.br/jobimchopin.mp3



A essa altura, e isso realmente não me comove, os fãs do Jobim já devem estar furiosos. Vão dizer que isso não é plágio, mas sim citação e inspiração. Como diria a Tati Quebrabarraco: "Calma, minha gente, é só marca de fogão".

De fato os compositores clássicos usavam pequenas "células musicais" como tema. A mais famosa é a quinta sinfonia do Beethoven, construída com centenas de variações de uma célula simples e famosíssima: tá-tá-tá-táááá. Dizem que os compositores clássicos eram desafiados por príncipes e outros nobres inúteis, que apresentavam um tema bobinho para que se fizessem sinfonias inteiras. Na falta de príncipes, nosso Chopin ia direto à fonte: o próprio Chopin.

Aliás, esse mesmo noturno tem uma sequência harmônica que foi usada em "Eu Te Amo", do Jobim. É uma sequência rara, com um acorde estranho, mas é tão difícil de explicar que deu preguiça.

Durante os primeiros 25 anos da minha vida, não gostava de Chopin. Achava os românticos simplesmente enjoativos e cafonas, com excesso de notas, excesso de "emoções", excesso de tudo. Um dia um professor da ECA me fez entender que o cara era um revolucionário na estrutura das músicas. Ele esticou um bocado o sistema tonal. Passei a observar sem preconceito e vi que o polonês realmente mandou bem, e não tinha culpa se suas músicas passaram a ser sistematicamente assassinadas em casamentos por tecladistas.

Também gosto do Jobim e achei saudável ele ter modernizado um bocado a música brasileira, embora tenha se baseado num estilo de jazz já ultrapassado na época de Chega de Saudade, uma vez que Miles Davis já estava na área, curado da heroína e detonando tudo. Também reconheço que o cara tinha um talento enorme para compor melodias e harmonias de canções populares.

O que me surpreende é esse tipo de "carona" nunca ter sido admitido, pelo menos publicamente ou pelo menos que eu saiba (li entrevistas, assisti a um DVD inteiro e não vi nada). O Jobim pegava uns pedaços de música erudita, transformava em popular, fazia isso com grande competência, mas depois deixava a impressão de que tirava suas melodias dos passarinhos do Brasil ou algo parecido.

Esse é o ponto. Em termos musicais, Chopin é mais legal do que os passarinhos. Por que não dar o crédito? Custa?

10 comentários:

Ricardo Del Guercio Bueno disse...

Excelente. Talvez com menos ufanismo a música brasileira volte a ser interessante.

Beto Melo disse...

É isso aí, Ricardo, assino embaixo...

Naldo Costa disse...

Exelente material muito didático e conexo, veja tambem a Ballade N0.1 Op 23 de Chopin e me diga se não lembra algo de Jobim também. E desta vez bastante explícito é praticamente um trecho inteiro da melodia.

Beto Melo disse...

Xi, Naldo, desculpe a incompetência, mas não consegui perceber sozinho. São centenas e centenas de composições, de um e de outro.
Na verdade, só consegui perceber a coincidência do assunto do post porque eu toco muito mal piano e no começo só conseguia fazer o trinado muito devagar... foi quando eu "ouvi" Retrato em Branco e Preto!
Agora me diz: qual é a música? Please!!!

Cléo Tassitani disse...

Belo texto! O que mais me comove, Beto, é tocar Sonata ao Luar, de Beethoven, em dueto com o meu filho mais novo, de 16 anos. O Giovanni na guitarra e eu no piano. Duas gerações "aplaudindo" um clássico. Claro que o Giovanni gosta de rock - mas a música clássica faz parte da vida dele desde criança, me ouvindo tocar. Salve Beethoven, Chopin, Bach, Mozart etc. etc. etc...

Anônimo disse...

Adorei o texto! Pena que não consegui escutar a comparação entre a música de Jobim e o noturno de Chopin! O link não funciona. Fiquei muito curiosa...

Geraldo Magela disse...

Na música erudita como também na popular e até mesmo na folclórica existem centenas de células iguais a essa do trinado do noturno de Chopin. Se levarmos em conta a repetição de quatro, cinco ou até mesmo dez notas, muita gente teria plagiado outros. O próprio Chopin usou em sua obra temas folclóricos (veja as canções polacas). O próprio Bach usou temas e citações e trechos de outros compositores. Na música sempre se encontrará algum trecho semelhante a outro. existe a coincidência musical, o empréstimo, a citação, a homenagem (tombeaus)o plágio inconsciente, o plágio consciente e o roubo. Durante minha vida, tenho colecionado milhares de exemplos que quero ilustrar um livro sobre o assunto, abraçando desde a música medieval até a popular de nossos dias. Mignone dizia que para haver plágio, deve haver a intenção de roubar os frutos e o sucesso de uma determinada obra, o que não é o caso de uma simples célula do trilo do noturno de Chopin.

Anônimo disse...

Cadê o trinado das músicas? Não os vejo! Somente semi-colcheias no Noturno e Colcheias na do Jobim. Vai basear a coisa em trinado? sendo que nem tem trinado nas fotos que você postou?!

Romulo Alves disse...

Realmente falta uma base pra dizer realmente que foi plágio. Como disse nosso amigo Geraldo Magela acima, o próprio Chopin colocou partes da musica de Bach e de outras conhecidas de sua terra natal, a Polônia, em sua música. Nem por isso ele deixou de ser grande. Tom Jobim foi, sim, um gênio. O que dizer da música "Oh by myself"? Parece que teve sua melodia retirada de partes do Piano Concerto n2, segundo movimento de Rachmaninoff.

Anônimo disse...

Plágio não....
Estas são as influêncas diretas e.... os músicos são extremamente inspirados por outros, estudam suas músicas, tocam as partituras, amam os novos encadeamentos...

Todos nós.... Músicos, estamos por exemplo falando o tempo todo de Bach em nossas músicas e nem percebemos....

Plágio é outra coisa.
Inclusive o plágio geralmente é feito por quem não é músico...

Compositores como Tom Jobim... não precisam plagear.

Jylson J. Martins Jr.